Ser Homem - Pensamentos furtivos
Ser Homem é uma experiência que muito perturba, quando nos meandros do crescimento se foi testemunha de intensos episódios cujo entendimento se escapa, fruto da pouca compreessão que se tem do mundo envolvente.
Um homem atormentado, povoado de equívocos, semeado de plantações, mantidas suspensas, prontas a desabrochar, ansiosas de alimento, adubo e água que as elevem da envolvência abafante duma terra ora seca ora alagada. Um sempre adiado ressurgir, um intoxicado assumir das formas próprias.
O mal do futuro equaciona-se na sua sempre adiada presença, projectado sempre para além do alcance, a perda duma oportunidade com consequências lamentáveis, se não devastadoras - um mal incontornável, um tormento devastador acabado às portas duma morte inevitável. Uma morte que parece sugerir uma intrigante dimensão de paz.
Engendra-se na revolução um ressurgir das forças dispersas nas lutas inebriantes do ser com o ser. Um afluxo de coragem que se eleva e veste de seriedade o homem emaranhado, contorcido nas questões sucessivas que o mantêm disperso e afastado do mundo contíguo a si próprio.
Claro que há revoluções e revoluções, escusado será prosseguir; um cheiro comprometedor pode misturar-se nos espaços! (Esta pode bem ser uma daquelas frases inúteis que na fogueira já desintegraram muitos homens).
A exploração do homem pelo homem é ferramenta próxima que sem darmos conta utilizamos abundantemente, camuflada por propósitos digníssimos, que de digníssimo pouco têm, mas será melhor acabar aqui, a fogueira já se refastela com a refeição próxima.
O mal de alguns homens consiste em insistirem em que qualquer coisa tem sempre alguma explicação, alguma função, algum interesse. Nada se assume sem uma intransigente racionalização, apaziguadora do espírito perturbado pela ignorância, assumida como uma enfermidade imposta pelo acto da existência. Viver torna-se uma trabalheira toda cheia de sobressaltos e incomodativas e eternas questões, tão distantes daqueles sábios homens que só se ocupam com o momento, expurgando do espírito essas tormentas dos ditos homens preocupados, que em tudo vêem uma consequência dum qualquer fenómeno.
Enfim, para se ser homem feliz é necessário aprender-se a viver com essa dita ignorância, obsessivamente tida como factor limitador do espaço, nas suas fronteiras interiores e exteriores.
Não seria de mais estabelecer um diferencial entre o Homem tido como corrente, e o outro, espécie de louco , repartido entre episódios do anterior e sucessões de uivantes Lobos das Estepes , ou ressonantes Leões, ora de barriga para cima, ora intempestivamente buscantes de alimento.
Haverá ainda, eventualmente, uma outra categoria de Homens, alienados sem opção, cansados do mundo e das desconcertantes exigências por ele solicitadas, exilados no seu interior ameno ou tempestivo, conforme o caso.
Ensaios literários, escrita criativa, palavras soltas, apontamentos, imaginações - José Guilherme Canelas Oliveira
terça-feira, 15 de julho de 2003
segunda-feira, 14 de julho de 2003
Eu já fui pequenino!
Um dia eu fui pequeno e brincava na rua, como todas as crianças.
Saltitava pelo quintal da minha casa, rebolava pela relva, corria incansavelmente, dava tiros com a minha arma feita de um tubo que havia sido um suporte duma bacia de quarto de banho. Uma arma era tudo o que eu queria, e aquela era mesmo boa. Não me recordo facilmente das outras crianças, mas claro que as havia, uma criança sozinha não é saudável. Os outros são sempre a nossa grande oportunidade de crescer e de repartir a nossa grande vitalidade.
Um dia fui para a escola, acho que era muito pequenino, não me lembro se gostei, mas devo ter gostado, tantos eram os ouvintes para as minhas fascinantes histórias.
Se gostei, devo ter deixado de gostar, ninguém aplaude as histórias fantásticas duma criança. Eu era gozado e empurrado. Apenas um grupo muito reduzido de meninos ficou meu amigo. Fazíamos parte da mesma fila de carteiras - era a fila dos meninos burros. Eu não era burro, mas eles não sabiam. Nunca me importei de lá estar, era a única fila onde tinha amigos.
Um dia em frente da escola o homem mau disse muitas coisas de que não me lembro. Nós estávamos formados como fazem os soldados, erguemos a mão direita e cantámos uma canção. Um dos meus amigos não levantou o braço e não cantou. Um dos meninos de outra fila que não a nossa boa fila dos burros, fez queixa e o homem mau bateu?lhe. Ele foi para o médico cheio de dores e com feridas - chorou muito e eu tive muita pena dele. Nesse dia compreendi que não estava sozinho, mas que devia ter cuidado. Fiquei com medo e deixei de contar tantas histórias. O meu amigo tinha a pele escura. Passei a brincar no mato sempre que me conseguia escapar. Um dia troquei uma navalha do meu pai por uma fisga. Não podia estar mais contente: agora, além de dar tiros, fazia barulho e caíam coisas quando os tiros lá chegavam.
Certo dia os meus pais não me deixaram ir para a escola. Fizeram um grande caso e estavam muito esquisitos. Nessa noite não dormi. Foi porreiro. Fomos todos para casa dum senhor. Passámos a noite a brincar, os nossos pais não nos chatearam. As mães estavam enfiadas na cozinha e os pais andavam lá fora. Eu descobri em cima duma mesinha uma pistola pequena que deitava lume quando se disparava, era uma chama muito bonita que ficava acesa até deixar de carregar o gatilho.
A noite foi muito luminosa e barulhenta, parecia que tinham ido todos à caça.
Ouviu-se um barulho muito alto e o mato à frente da casa começou todo a arder, foi tão bonito! De manhã veio um camião grande com muitos soldados a sério, tinham uma roupas porreiras e muitas caixinhas e uma pistola. Andavam sempre com uma espingarda e tinham um capacete de ferro.
A partir desse dia tudo foi diferente. Mais tarde mudámos de casa e toda a gente ficou cheia de medo. Às vezes ouviam-se tiros. Nas estradas havia muitos soldados. Um dia andava com o meu pai e numa barreira onde estavam uns soldados muito barulhentos passou um carro velho e não parou. Os soldados deram muitos tiros; uma porta do carro abriu-se e caiu um homem velho a deitar sangue. O meu pai tapou-me os olhos e saiu dali. Mas eu ainda vi. Ele pensa que não.
Todos os anos faziam uma grande feira na cidade. Haviam muitos pavilhões com brinquedos e máquinas e quadros e desenhos e comidas e luzes. Lembro-me dumas fontes muito grandes onde havia jactos de água que subiam muito alto e tinham muitas luzes que saiam da água. Lembro?me muito dum pavilhão onde estavam muitas fotografias e coisas escritas nas paredes. Quando fecho os olhos vejo uma fotografia onde havia ao longe uma casa sem janelas e portas, com as paredes todas furadas, a estrada toda cheia de lixo e na borda uma espécie de rio pequenino onde boiavam muitas coisas esquisitas; lembro?me dos cabelos cumpridos de mulher e dum braço que saia da água.
Deixei de ir à escola porque os meus pais tinham medo que eu ficasse aleijado.
Um dia viemos embora para outro país onde não havia tiros mas estava sempre a chover.
Um dia eu fui pequeno e brincava na rua, como todas as crianças.
Saltitava pelo quintal da minha casa, rebolava pela relva, corria incansavelmente, dava tiros com a minha arma feita de um tubo que havia sido um suporte duma bacia de quarto de banho. Uma arma era tudo o que eu queria, e aquela era mesmo boa. Não me recordo facilmente das outras crianças, mas claro que as havia, uma criança sozinha não é saudável. Os outros são sempre a nossa grande oportunidade de crescer e de repartir a nossa grande vitalidade.
Um dia fui para a escola, acho que era muito pequenino, não me lembro se gostei, mas devo ter gostado, tantos eram os ouvintes para as minhas fascinantes histórias.
Se gostei, devo ter deixado de gostar, ninguém aplaude as histórias fantásticas duma criança. Eu era gozado e empurrado. Apenas um grupo muito reduzido de meninos ficou meu amigo. Fazíamos parte da mesma fila de carteiras - era a fila dos meninos burros. Eu não era burro, mas eles não sabiam. Nunca me importei de lá estar, era a única fila onde tinha amigos.
Um dia em frente da escola o homem mau disse muitas coisas de que não me lembro. Nós estávamos formados como fazem os soldados, erguemos a mão direita e cantámos uma canção. Um dos meus amigos não levantou o braço e não cantou. Um dos meninos de outra fila que não a nossa boa fila dos burros, fez queixa e o homem mau bateu?lhe. Ele foi para o médico cheio de dores e com feridas - chorou muito e eu tive muita pena dele. Nesse dia compreendi que não estava sozinho, mas que devia ter cuidado. Fiquei com medo e deixei de contar tantas histórias. O meu amigo tinha a pele escura. Passei a brincar no mato sempre que me conseguia escapar. Um dia troquei uma navalha do meu pai por uma fisga. Não podia estar mais contente: agora, além de dar tiros, fazia barulho e caíam coisas quando os tiros lá chegavam.
Certo dia os meus pais não me deixaram ir para a escola. Fizeram um grande caso e estavam muito esquisitos. Nessa noite não dormi. Foi porreiro. Fomos todos para casa dum senhor. Passámos a noite a brincar, os nossos pais não nos chatearam. As mães estavam enfiadas na cozinha e os pais andavam lá fora. Eu descobri em cima duma mesinha uma pistola pequena que deitava lume quando se disparava, era uma chama muito bonita que ficava acesa até deixar de carregar o gatilho.
A noite foi muito luminosa e barulhenta, parecia que tinham ido todos à caça.
Ouviu-se um barulho muito alto e o mato à frente da casa começou todo a arder, foi tão bonito! De manhã veio um camião grande com muitos soldados a sério, tinham uma roupas porreiras e muitas caixinhas e uma pistola. Andavam sempre com uma espingarda e tinham um capacete de ferro.
A partir desse dia tudo foi diferente. Mais tarde mudámos de casa e toda a gente ficou cheia de medo. Às vezes ouviam-se tiros. Nas estradas havia muitos soldados. Um dia andava com o meu pai e numa barreira onde estavam uns soldados muito barulhentos passou um carro velho e não parou. Os soldados deram muitos tiros; uma porta do carro abriu-se e caiu um homem velho a deitar sangue. O meu pai tapou-me os olhos e saiu dali. Mas eu ainda vi. Ele pensa que não.
Todos os anos faziam uma grande feira na cidade. Haviam muitos pavilhões com brinquedos e máquinas e quadros e desenhos e comidas e luzes. Lembro-me dumas fontes muito grandes onde havia jactos de água que subiam muito alto e tinham muitas luzes que saiam da água. Lembro?me muito dum pavilhão onde estavam muitas fotografias e coisas escritas nas paredes. Quando fecho os olhos vejo uma fotografia onde havia ao longe uma casa sem janelas e portas, com as paredes todas furadas, a estrada toda cheia de lixo e na borda uma espécie de rio pequenino onde boiavam muitas coisas esquisitas; lembro?me dos cabelos cumpridos de mulher e dum braço que saia da água.
Deixei de ir à escola porque os meus pais tinham medo que eu ficasse aleijado.
Um dia viemos embora para outro país onde não havia tiros mas estava sempre a chover.
Os Habitantes dos Corpos e o Cavaleiro Andante
Naqueles saudosos tempos vivia lá para os lados da montanha um enigmático, saudável e austero cavaleiro. Possuidor dum magnífico cavalo de claros e firmes tons, sempre ligeiro na ponta robusta dos sólidos cascos.
As mais das vezes, passava recolhido na sua quinta, enfiada na reverdescente floresta, banhada numa das faces pela serenidade duma vasta lagoa, lambida noutra pela brisa marinha dum farto oceano ainda escasso de marinheiros.
Enfiado nas suas muitas imaginações, cavaleiro pródigo, todo cheio de histórias das imensas viagens, sempre longas e de saborosas paisagens, assim vivia, fazendo do viver um imenso laboratório onde testava a arte da vida, procurando tirar conclusões e engendrando outras formas de estar, sempre insaciavelmente, em busca duma mais substancial maneira de viver.
Nem sempre satisfeito com as suas vastas propriedades, via-se envolvido em perigosas conquistas ao mundo externo, progredindo cautelosamente pelos vastos territórios que o cercavam.
Assim ia, em busca dos alimentos, em busca dos tecidos, em busca dos livros. Guiado por uma espécie de carta onde ia fazendo acrescentos, uma bússola por si construída, e um coração cheio do orgulho de conquistador.
Progredindo pelo selvagem território lá ia, sempre ligeiro, sempre maravilhado pela fresca verdura. Aqui e ali se deparava com um nativo que logo, desconfiado, se resguardava atrás de algum arbusto, só de lá saindo passada a distância. Ele sempre sorridente, de suaves palavras, diplomata convicto, nada mais recebia do que uma redobrada desconfiança; a simpatia de estranho inspirava sempre cuidados. Naquelas terras a boa palavra impunha sempre redobrados cuidados, era muitas vezes sinónimo de má intensão. Simpatias de estranho, maus intuitos. Enfim, ao explorador sempre se apresentam agrestes as recepções, fado seu, imagem suscitadora de cuidadas considerações.
Eram longos os territórios, demorada a viagem, chegada finalmente ao seu destino.
Sempre pareciam inoportunas as raras visitas daquele estranho visitante, que a todos, pela sua impressionante serenidade, assustava.
Logo se acelerava o ritmo pasmacento daquela pequena cidade; de boca em boca se alongava a notícia, o cavaleiro de rosto sorridente havia uma vez mais chegado. Queira Deus que ao merceeiro não faltem as energias, que as suas astúcias não se tornem demora. Logo se vá para longe e não mais volte.
Os mais jovens vão, sorrateiramente, imaginando naquele ocasional visitante um mensageiro da boa nova. Valha o Senhor Deus! Tão indefesas são as criancinhas; ficam preocupados os pais, tão ajeitado era o estranho senhor a conversar com os seus delicados meninos; logo imaginavam a perversão das tenras ideias pelas ideias moribundas. Logo se temia a subtil revolta contra os costumes tão trabalhosamente mantidos entre gerações, mau grado as modernices que tantos custos lhe infligiam.
O cavaleiro lá se instalava na mercearia, encomendando um rol de mantimentos, fartos quanto bastasse para uma viagem ao outro mundo. Esquecia?se o merceeiro dos temores, e lá se enchia duma arregalada felicidade tão impudentemente espelhada no rosto.
Acaloradamente empreendia um discurso febril aconselhando as modernas conservas que vinham lá da capital, a frescura dos legumes, a viveza dos peixes, o tenro bife, a aromática pimenta. Saltavam na caixa as moedas reluzentes que tão bem faziam à saúde do mercador, ficando tão farto de alegrias.
Mandou que a tudo acondicionasse devidamente, por forma a não sofrer as agruras da viagem.
Como era hábito seu, lá partiu em exploração à única casa de livros que existia em redor. Eram saudáveis os volumes expostos, como que a convidar à Boa Educação; como convém aos Bons Costumes, Nada de livros difíceis, perturbantes dos tenros espíritos dos queridos filhos da cidade. Todos os bons autores, devidamente sancionados pelas legais entidades, eleitas pelo sufrágio universal, lá estavam convidando à saudável leitura.
O livreiro, que havia descoberto na intrigante figura, um cliente, como não havia no mundo outro igual, criara na cave uma escondida biblioteca, abastecida de alguns, poucos, volumes que, a serem descobertos pelas autoridades, lhe custariam seguramente fartos tormentos. Livros lá depositados eram negócio fechado, a bom dinheiro, valiam por muitos dos permitidos pela legal autoridade. A todos o cavaleiro de olhos cintilantes levava.
Parecia ao cavaleiro que a dita Boa Educação, não mais era do que uma fronteira que interditava as Ideias Abertas aos jovens alunos. Ideias julgadas por todos como um despropósito nada saudável, que incutia vícios, e ritmos perigosos a uma sociedade, propiciando atritos e contestações.
Esses dias eram motivo de redobrada felicidade para o livreiro; a sua sempre tão pouco visitada loja, enchia-se de crianças, que buscavam o contador de histórias. De entre eles se erguia um rol de novos leitores, tão intensamente desejados.
Vendo-se, assim, tão cercado de ouvintes, lá começava a contar uma história toda cheia de peripécias. Com grandes gestos desenhava no ar a forma dos impressionantes cenários; a sua voz tomava o timbre de cada personagem, o volume acutilava os desfechos, tonificava as palavritas, orgulhava as palavras, acerbava as palavronas. Ia assim dizendo que nem tudo os livros reflectiam, especialmente aqueles que lhes eram facultados. Muitas vezes eram alegorias que convidavam à meditação.
Os educadores, mortificados, viam com grandes apreensões aquele apego dos educandos, que tanto lhes escapavam perante os saudáveis conselhos, e tão facilmente se chegavam ao inquietante personagem. Secretamente sofriam atrozes invejas pelo poder de atracção de tão fácil orador - só a custos e reprimendas ganhavam a atenção dos pequenos ouvintes.
Naqueles saudosos tempos vivia lá para os lados da montanha um enigmático, saudável e austero cavaleiro. Possuidor dum magnífico cavalo de claros e firmes tons, sempre ligeiro na ponta robusta dos sólidos cascos.
As mais das vezes, passava recolhido na sua quinta, enfiada na reverdescente floresta, banhada numa das faces pela serenidade duma vasta lagoa, lambida noutra pela brisa marinha dum farto oceano ainda escasso de marinheiros.
Enfiado nas suas muitas imaginações, cavaleiro pródigo, todo cheio de histórias das imensas viagens, sempre longas e de saborosas paisagens, assim vivia, fazendo do viver um imenso laboratório onde testava a arte da vida, procurando tirar conclusões e engendrando outras formas de estar, sempre insaciavelmente, em busca duma mais substancial maneira de viver.
Nem sempre satisfeito com as suas vastas propriedades, via-se envolvido em perigosas conquistas ao mundo externo, progredindo cautelosamente pelos vastos territórios que o cercavam.
Assim ia, em busca dos alimentos, em busca dos tecidos, em busca dos livros. Guiado por uma espécie de carta onde ia fazendo acrescentos, uma bússola por si construída, e um coração cheio do orgulho de conquistador.
Progredindo pelo selvagem território lá ia, sempre ligeiro, sempre maravilhado pela fresca verdura. Aqui e ali se deparava com um nativo que logo, desconfiado, se resguardava atrás de algum arbusto, só de lá saindo passada a distância. Ele sempre sorridente, de suaves palavras, diplomata convicto, nada mais recebia do que uma redobrada desconfiança; a simpatia de estranho inspirava sempre cuidados. Naquelas terras a boa palavra impunha sempre redobrados cuidados, era muitas vezes sinónimo de má intensão. Simpatias de estranho, maus intuitos. Enfim, ao explorador sempre se apresentam agrestes as recepções, fado seu, imagem suscitadora de cuidadas considerações.
Eram longos os territórios, demorada a viagem, chegada finalmente ao seu destino.
Sempre pareciam inoportunas as raras visitas daquele estranho visitante, que a todos, pela sua impressionante serenidade, assustava.
Logo se acelerava o ritmo pasmacento daquela pequena cidade; de boca em boca se alongava a notícia, o cavaleiro de rosto sorridente havia uma vez mais chegado. Queira Deus que ao merceeiro não faltem as energias, que as suas astúcias não se tornem demora. Logo se vá para longe e não mais volte.
Os mais jovens vão, sorrateiramente, imaginando naquele ocasional visitante um mensageiro da boa nova. Valha o Senhor Deus! Tão indefesas são as criancinhas; ficam preocupados os pais, tão ajeitado era o estranho senhor a conversar com os seus delicados meninos; logo imaginavam a perversão das tenras ideias pelas ideias moribundas. Logo se temia a subtil revolta contra os costumes tão trabalhosamente mantidos entre gerações, mau grado as modernices que tantos custos lhe infligiam.
O cavaleiro lá se instalava na mercearia, encomendando um rol de mantimentos, fartos quanto bastasse para uma viagem ao outro mundo. Esquecia?se o merceeiro dos temores, e lá se enchia duma arregalada felicidade tão impudentemente espelhada no rosto.
Acaloradamente empreendia um discurso febril aconselhando as modernas conservas que vinham lá da capital, a frescura dos legumes, a viveza dos peixes, o tenro bife, a aromática pimenta. Saltavam na caixa as moedas reluzentes que tão bem faziam à saúde do mercador, ficando tão farto de alegrias.
Mandou que a tudo acondicionasse devidamente, por forma a não sofrer as agruras da viagem.
Como era hábito seu, lá partiu em exploração à única casa de livros que existia em redor. Eram saudáveis os volumes expostos, como que a convidar à Boa Educação; como convém aos Bons Costumes, Nada de livros difíceis, perturbantes dos tenros espíritos dos queridos filhos da cidade. Todos os bons autores, devidamente sancionados pelas legais entidades, eleitas pelo sufrágio universal, lá estavam convidando à saudável leitura.
O livreiro, que havia descoberto na intrigante figura, um cliente, como não havia no mundo outro igual, criara na cave uma escondida biblioteca, abastecida de alguns, poucos, volumes que, a serem descobertos pelas autoridades, lhe custariam seguramente fartos tormentos. Livros lá depositados eram negócio fechado, a bom dinheiro, valiam por muitos dos permitidos pela legal autoridade. A todos o cavaleiro de olhos cintilantes levava.
Parecia ao cavaleiro que a dita Boa Educação, não mais era do que uma fronteira que interditava as Ideias Abertas aos jovens alunos. Ideias julgadas por todos como um despropósito nada saudável, que incutia vícios, e ritmos perigosos a uma sociedade, propiciando atritos e contestações.
Esses dias eram motivo de redobrada felicidade para o livreiro; a sua sempre tão pouco visitada loja, enchia-se de crianças, que buscavam o contador de histórias. De entre eles se erguia um rol de novos leitores, tão intensamente desejados.
Vendo-se, assim, tão cercado de ouvintes, lá começava a contar uma história toda cheia de peripécias. Com grandes gestos desenhava no ar a forma dos impressionantes cenários; a sua voz tomava o timbre de cada personagem, o volume acutilava os desfechos, tonificava as palavritas, orgulhava as palavras, acerbava as palavronas. Ia assim dizendo que nem tudo os livros reflectiam, especialmente aqueles que lhes eram facultados. Muitas vezes eram alegorias que convidavam à meditação.
Os educadores, mortificados, viam com grandes apreensões aquele apego dos educandos, que tanto lhes escapavam perante os saudáveis conselhos, e tão facilmente se chegavam ao inquietante personagem. Secretamente sofriam atrozes invejas pelo poder de atracção de tão fácil orador - só a custos e reprimendas ganhavam a atenção dos pequenos ouvintes.
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