quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Vírus


Hoje é dia de festa!


Hoje faço cinquenta e cinco anos, vários meses, uns tantos dias, umas poucas de horas, e uns quaisquer minutos.


Tal como eu também Vocês fazem anos. São os Vossos anos, meses, dias, horas e segundos.


Estamos todos de parabéns!


Passou mais de um ano desde  Fevereiro de 2020. Mês em que o dito estafermococo apareceu. E tudo se precipitou numa desatinante sequência de episódios incomuns.

Ocorreram  aniversários normais. Ocorreram acidentes inoportunos. Faleceram entes queridos. Foram sujeitos a intervenções médicas alguns. Estiveram internados uns. Nasceram ou foram adotados outros.

Em resumo aconteceu a todos a Vida! A Vida que nos conduz do embrião, do nascimento, que nos faz passar pelas estações e nos conduz ao dia final, à estação onde termina a viagem.


Parece-me que todos e cada um passou por momentos onde foi herói. E outros momentos onde nada foi e onde algumas vezes não quis ser mais.


A vida pode ser feliz, pode ser enigmática, pode ser difícil, pode ser dura…


E tem sido nestes tempos mais próximos, desafiante, difícil e dura para muitos de nós, em diferentes episódios desta viagem em decurso.


O mundo parece ter ficado virado e fora do norte. O dia a dia foi interrompido e ficámos, atormentados e condicionados a um espaço repentinamente exíguo. Deixámos de nos ver frente a frente e tornamo-nos publicados nos écran dos nossos telemóveis, dos nossos computadores. Passámos a viajar por WiFi e  os carros e os aviões ficaram estacionados.

O bicho invisível a todos assusta. Não sei se pela sua essência se pela sua descrição. 

O Mundo mudou, ou a consciência que dele temos ficou irremediavelmente alterada, redesenhada, ou outra coisa de entendimento intrincado.



José Guilherme | 29.09.2021


Corpo


É um corpo carnudo de aparência angélica feito pelo Deus num momento de grande inspiração. A Criatividade Divina transformou o pedaço de osso da costela numa obra de arte eterna.

Fez a fêmea parecida com o macho. Extensivo um do outro. Encaixam bem sendo de altura próxima e de humores complementares. Um é robusto e áspero, o outro é suave e gracioso. 

O Deus estava deveras bem-disposto e generoso, pois não existirá no universo conhecido algo de tão elegante, tão passível de ser desejável e aspirado.

A pele é suave e deslizante, tem protuberâncias, saliências, curvas, altos e vales de uma geometria simultaneamente simples e intrincada.

Pressente-se na superfície húmida da língua um sabor aromático, um vislumbre de infinito, uma perplexidade inexprimível.

Um desejo crescente, de sentido misterioso, furta-se à lógica instituída do sentido do viver individual e coletivo.

Fecham-se as pálpebras e pressentem-se no interior dos pensamentos imagens movediças, dançantes e saltitantes. Entusiasmam e alimentam energias capazes de percorrer longas distâncias e tempos demorados.

Na história dos tempos vão-se acumulando descrições minuciosas, exemplos múltiplos de formatos, vontades, tendências, cumplicidades, várias e arrastadas.



José Guilherme | 26.07.2017


Morte


Pelos olhos começa o mundo quando eles se abrem. Acontece a vida de forma crescente e contínua.

Pelos olhos se interrompe o mundo quando eles se fecham. Projeta-se a vida no ecrã alimentado pela memória interior.

A vida é uma viagem que começa num olhar que se abre e fecha, e segue numa troca, numa comunhão, num compromisso.

A viagem prossegue entre estações que se sucedem num trajeto que segue as posições num mapa mundo que vai crescendo com o tempo.

Mas um dia os olhos fecham-se e ficam fechados. A luz do mundo não mais entra. A viagem interrompe-se nesse mapa mundo testemunhado pelos olhos. 

Há quem diga que a viagem se transfere e passa para um outro mundo que não se vê com esses olhos biológicos.

Entre os mundos não sobra história, nem notícias. Cada um só se vê a si. Só o Deus pode ver todos os mundos, se Ele, ou os mundos existirem!

A vida fecha-se criando uma ausência que se sente, que fere e agride, muitas vezes.

O tempo, o tempo acrescenta tempo. Um tempo necessário para que a vida prossiga e os olhos se abram e vejam o que está no mundo, e transforme as formas em descrições, em palavras significativas e cheias de volume.

Uns olhos testemunham o que os outros olhos fazem. Os últimos desligam o tempo e fecham o mundo, deixam que os primeiros fiquem encharcados de uma ausência penetrante e corrosiva. Os olhos fazem os químicos internos desnortearem a ordem perfeita e ficarem descontrolados numa fazedura caótica, aleatória, encharcante.

Uma humidade tímida, ansiosa, escorregadia, sai dos olhos, dos olhos que ficam, dos olhos que testemunham a partida dos outros olhos companheiros. Os olhos idealmente comungam aos pares numa dança circulante, abundante, cúmplice.

A partida de uns olhos deixa nos outros olhos um vazio, uma serena lágrima que escorrega pelo rosto, uma solidão que como o nevoeiro se vai dissipando com o passar do tempo…



José Guilherme | 28Set2017


O Cheirinho


Uma vela acende-se no interior de uma vasilha de louça, por cima deposita-se a tarte de cheirinho. A chama da vela lambe o interior da louça fazendo derreter a cera do cheirinho que está por cima. 

Um aroma suave, progressivo, volumoso, inebriante, vai-se libertando da cera à medida que esta se derrete.

As pálpebras recolhem-se, a visão diminui e o olfato cresce, intensifica-se e purifica-se. O aroma progressivo enche o sentido do envolvente de uma forma primeiro anónima, depois mais marcante e mesmo dominante.

O corpo contrai-se, um silêncio interrogativo faz atenção. As mãos, os braços, envolvem o corpo inquieto. Uma energia motivada e agitante eleva-se e transborda. 

Um estado de liberdade transpirante eclode pela epiderme elevando a percepção do mundo.

Pelo nariz entra uma fragrância que faz forte o sentido, faz apertados os dedos dobrados, faz rijos os braços envolventes. No peito forma-se uma força expansiva. No pensamento crescem faíscas.

Uma fantasia saltitante, agitada, feliz, sorridente, imagina uma interação de olhares, de sentidos cúmplices.

Um abraço aproxima, envolve, toca, faz adivinhar, dispara, enche, desatina e aquieta. 

Um desejo explode, impõe, adivinha, imagina, súplica.

Um cheirinho faz surgir uma explosão de sentidos que propaga pelo espaço uma imposição inquietante, uma imposição tranquilizadora.

Os olhos fecham-se e abre-se uma consciência expansiva



José Guilherme | 31.10.2017


quarta-feira, 26 de julho de 2017

Paixão


Uma força intensa propaga-se pelo corpo, eclode no interior dos músculos, rebenta no interior dos pensamentos velozes, expande-se rapidamente pelo interior do corpo e nasce pela epiderme.

É uma felicidade quando o dia a dia se desenrola num espírito de paixão.

Essa paixão que ocorre entre episódios de vida privada e se propaga pelos momentos da vida profissional.  

Essa paixão que alimenta a visão positiva, o sentido otimista, o desejo de prolongamento. A vontade de repetir, de continuar, de refazer, de insistir, de ir mais além.

A paixão que afasta o desaire, a frustração, o cansaço, o sentido de inquietude e de ansiedade.

Quando se ausenta, quando escasseia, fica tudo difícil, fica tudo num nunca mais terminar.

Sem paixão apela-se à paciência, à persistência intolerável. O tempo torna-se arrastado e demora a chegar lá.

Como criar de novo a paixão? Como voltar ao animo feliz, ingénuo, expansivo.

Faz falta essa paixão locomotora, esse gerador de criatividade agitada.

É preciso parar, olhar para muitos lados, insistir, ferrar os olhos nos sentidos.

O que se passa? Porra, onde está o raio da paixão. Exige-se que venha, depressa, com postura e volume.

Sem paixão tudo fica com um sentido desfocado, provinciano, limitado, áspero.

Não passa de uma decisão! É preciso decidir que é tempo de paixão. Com coragem e persistência.

Mas é difícil a coragem e o sentido verdadeiro da intenção de decisão.



José Guilherme | 26.07.2017

Lágrima



Uma lagrima escorre pelo rosto doloroso, pelo rosto quase sem expressão, quase como um espelho fustigado pelos vapores da sauna húmida.

Noutras ocasiões, também uma lágrima escorreu pelo rosto, então brilhante, cheio de uma alegria camuflada em expressões vincadas na face esquiva.

Uma e outra lágrima, são faces da mesma moeda, ou então talvez de moedas distintas, em localizações, e tempos afastados.

A história das lágrimas arrasta-se pelo calendário longo, e às vezes apenas pelo tempo curto dos ponteiros num relógio caseiro.

Os olhos prolongam-se pela paisagem longa, tristes ou alegres, depende da face, ou das faces de moedas talvez distantes.

Uma lagrima espelha o mistério do sentido do interior do ser onde essa lágrima brota. Reflete o bom sentir, abundante, ou o sentir apertado pela ansiedade eminente.

Uma lagrima expressa a desesperança apertada dentro da consciência do interior do ser. Ou, a alegria das fronteiras dilatadas pela relatividade do sentir.

O ser sente uma necessidade desatinante de chorar, um desespero incerto de exteriorizar a angustia amarfanhante que lhe enche a alma.

O ser sente uma necessidade transbordante de chorar, uma alegria desmedida de exteriorizar a felicidade envolvente que lhe preenche a alma.

A lágrima dá lugar a um olhar prolongado que, como o feixe do farol, varre o horizonte de forma certa e infalível.



José Guilherme | 12.07.2017

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Beijo



Fecho os olhos e revivo a energia intensa que percorre todo o corpo quando os lábios se encontram devagarinho. Pequenas faíscas propagam-se pela superfície da pele.

No caldeirão da memória misturam-se químicos inebriantes.

Os lábios tocam-se devagarinho, beliscam-se, esfregam-se, trincam-se, humedecem-se, colam-se, amordaçam-se, comprimem-se, e debatem-se numa luta frenética, acelerante, engrandecedora.

Quero beijar incessantemente, com ferocidade, mas também com ternura e veludo. 

Quero encostar, quero percentir, quero beber.

Quero saborear com a língua, apalpar os dentes, interagir e partilhar.

Quero imaginar a macieza, o sabor intenso.

Quero dar um beijo.

Quero receber um beijo.

Quero usufruir do beijo.

Quero oferecer o beijo.

Quero desfrutar, quero oferecer.

Quero aquietar o sentir, fechar os olhos, imaginar o sabor, o calor, o volume, e adormecer com o sorriso tranquilo de quem dá e recebe o primeiro beijo grande….


Guilherme | 29Jun2017

Desejo intenso



Um desejo intenso e perturbador expande-se no meu interior. Uma sensação inquietante corre entre a fronteira palpável do consciente e o nevoeiro camuflante do inconsciente.

As pálpebras obscurecem momentaneamente a certeza do visível, invadindo a câmera interior com um crepitar de chama que lambe as paredes delimitadoras da arquitetura interna.

A mão fica tensa, contraída. Os dedos como que agarram uma imagem que se forma no pensamento. Os músculos contraem e apertam.

O desejo incerto, mas feroz, acutila o sentido do envolvente. O desejo rasga o sentir do corpo. A fronteira entre a consciência do interior e a presença do exterior.

O desejo desatina e doí.

O desejo morde com obstinação.

O desejo quer.

O desejo persiste e insiste.

Eu quero o desejo, eu desejo o desejo, eu angustio e sinto a falta desse desejo que às vezes não mais é desejo.

Oh desejo desejável não me deixes nesta ausência do desejo que já estou farto de desejar.
Tanto desejo, tanta ferocidade, e no fim uma angústia pela felicidade que o desejo dá.

Desejo meu deixa-me partilhar-te com aqueles que tanto desejo.

Fico extenuado de tanto desejar e tanto conter o ímpeto da partilha desse desejo intenso.

Quero desejar tanto que tanto transborde esse desejo que tanto se torne desejado esse meu desejo.

Guilherme 29Jun2017


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Apagar o lixo


Um monte de pastas, folhas acumuladas, espalhadas pelo chão, amontoadas sobre a mesa.

Os olhos saltam de uma pasta para a outra, procurando perceber onde começar.

Imagens distantes vão-se insinuando em frente dos olhos. Os documentos induzem memórias, momentos distintos confundidos, sobrepostos, disformes, tímidos, difíceis de perceber num primeiro instante.

Os olhos vagueiam hesitantes e um sentido de confusão vai conduzindo a uma visão, um filme sequencial que se projeta simultaneamente lento e rápido, numa forma tão clara quando turva.

É uma amalgama disforme, que amordaça, angustia, compromete.

Uma energia crescente acutila o desejo de esmagar, triturar, desfazer em pedaços.

Abre-se um saco grande, e agarra-se uma pasta, uma qualquer, a que está mais próxima. Abre-se e agarra-se um maço de folhas que se desfolham rapidamente e com uma convicção hesitante rasgam-se ao meio.

Rasgam-se ao meio e ao meio e ao meio, umas e mais outras, e depois novamente mais outras, e outras, e outras…

Faíscas apressadas saltitam entre as mãos, nos olhos, na memória. Uma certeza combina com uma dúvida. Mas as folhas vão-se transformando em pedaços de documentos rasgados. Amontoam-se no saco e vão-se transformando num lixo libertador.

A angustia vai-se tornando num conforto. As memórias vão-se libertando e vai sobrando novo espaço para novas memórias.

Uma sensação de libertação vai crescendo conforme os arquivos emagrecem e se transformam num lixo que pode ser deitado fora.

Não é fácil prescindir desses documentos pregados na história. Parece sempre que fazem falta, ou que vão ser precisos para alguma coisa importante. Arrastam-se, ocupam muito espaço, cultivam microrganismos e aprisionam a memória. Mantém-nos reféns duma continuidade absorvente, vigilante, limitadora.

É bom emagrecer e prescindir dessas toxinas que enchem o nosso corpo com limitações.


José Guilherme | 13.06.2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Sexo


Quero fazer amor, quero fazer sexo, quero sentir a paixão intensa, quero usufruir da empolgante magia das hormonas agitadas, o êxtase extrovertido da faísca que saltita na superfície crispada da epiderme.

Sinto o sabor perfumado dos lábios que se digladiam, das línguas que se retorcem.

As mãos deambulam e fazem pressão aqui e ali. Os cabelos esvoaçam, e acariciam.

A língua escorrega e lambe loucamente toda a pele desnuda que se atravessa.

Os peitos tenrinhos conquistam-se milimetricamente, terminados nos bicos duros que se sugam obsessivamente em busca da memória primeira, das gotas alimentícias que nascem frugais.

As mãos apertam a cintura firme e desçam pelas ancas abastadas, apalpando as nádegas carnudas, fartas, quentes, sôfregas de dentadinhas lentas e insistentes.

A língua como que despercebida, vai por aqui, vai por ali, desce mais à frente, retrocede mais um pouco, passa à esquerda, desvia-se para a direita, aproxima-se, detém-se, observa, eleva-se, mergulha, espalma-se, e lambe, lambe com prazer intenso e orgulhoso.

O corpo estremece e intensifica-se, sofrendo espasmos elétricos que se propagam e dilatam.

Os lábios, húmidos, dilatados, abrem-se e anseiam.

Os corpos ajustam-se, agarram-se, debatem-se e penetram-se.

Uma onda intensa, obsessiva, poderosa, bombeia e deflagra, lubrificando, aquecendo, enlouquecendo instantaneamente. Os corpos unidos num só, sentem uma eternidade fugidia, ficam estáticos, intensos, humildes, numa meditação eterna.


A solidez da força, da contração, da confiança, do amor próprio engrandecido, acalma e mergulha numa plenitude, numa serenidade que se propaga e pinta o arco-íris com as cores duma visão suavizada e eterna.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Fogo de artifício


Tenho intenso desejo de entrar e sentir a explosão em mil raios luminosos, a projeção da energia contida. Tenho saudades de planar pelas montanhas voluptuosas. Caminhar pelas bordas da nascente. Beber o néctar que brota da fonte onde a vida se torna cheia de sentido e de felicidade. Tenho saudades e um desejo quase doloroso de sentir nos meus dedos, nos meus lábios, nos meus dentes, os botões viçosos da fonte da vida.

Estou sozinho e longe da fonte, por isso apenas sozinho posso expandir-me, mas quando sozinho não estou, a fonte mantem-se absorvida e imperturbável, concentrada na evolução da espécie, nos afazeres muitos, nas exigências das tarefas cansativas e comprometedoras da presença.

Sinto o tormento da história, sou assombrado pelas noites compridas, pela solidão do silêncio, pela incógnita do significado, pela busca da compreensão. Os pontos de referência tornam-se movediços e os modelos seguros ficam desfocados.

O projeto do futuro feito no passado está comprometido no presente. A paixão e o prazer das tarefas do trabalho ficam expostas a sentidos adulterados cujo significado se perde em momentos de tédio, de desilusão, e até de tristeza e frustração.

Onde estou, para onde vou, para onde quero ir?!... Um silêncio desagradável, arrastado e corrosivo vai-se sucedendo num impasse sem final visível.

Procurar, procurar, procurar… encontrar aqui e ali indícios, uns fáceis, outros subtis, outros encriptados, outros difíceis, alguns muito difíceis!


Preciso de uma festa… de um carinho. Fecho os olhos e sinto uma imaginação a passar-me entre os cabelos, a roçar as minhas orelhas, a pressionar a minha nuca. Sinto um sorriso a acariciar-me o rosto, um sussurrar nos meus lábios, uma humidade deslizante a deslocar-se pelo meu peito, a mordiscar o meu botão. Sinto um sobrevoar subtil a tatear o meu sentido adormecido. Sinto um ímpeto crescente a avolumar e tornar poderoso o homem que sou. Quero explodir, quero ficar tranquilo, com um sorriso no rosto a adormecer no colo da amada que me recebe e possui…

José Guilherme 22Mar2017

Memórias


Imagens, muitas imagens. Memórias, muitas memórias. Fotografias misturadas, momentos desfocados e alternados. Impressões marcadas nas imagens que se sucedem, nos pensamentos desordenados que fluem numa sequência tanto marcante quanto fugaz.
É bom ter memórias, é perturbador tê-las. É difícil quando se  misturam e perdem a cronologia.
Nas cores que se misturam estão incorporados sentimentos, estados de espírito, esquecimentos, falhas, pecados, conquistas, desafios, coragens.
As palavras fogem, os sentidos ficam difíceis de discernir, os sons atenuam-se, os olhos perturbam, um sentido de solidão enche o invólucro da célula envolvente.
Uma ideia, uma imagem... marcantes, começam e não terminam, sucedem-se em cadência, enchem e esvaziam, aquietam e perturbam.
Falta um botão que hiberne o pensamento e dê tempo de se resolver e tomar forma mais fácil.

  

30 de Março, José Guilherme

terça-feira, 21 de março de 2017


Estou aqui a olhar à volta. Estou aqui a pensar incessantemente. Estou aqui a desejar encontrar uma forma de abreviar o pensamento. Estou aqui a pensar, a pensar, a pensar…. Forma-se-me no pensamento um desejo de plenitude, uma continuidade de comunhão, de partilha.

Sinto no meu peito, no interior dos meus braços uma escassez, um desejo, uma ausência, um querer intenso, uma crescente imagem mental, uma imaginação, um cheiro virtual, um desejo perturbador de apertar nos meus braços a forma volumosa de outro corpo externo ao meu. Forma-se no meu rosto uma presença subtil que permuta calores e cumplicidades. Desejo, desejo, desejo… o cheiro quente e perfumado que se evapora da superfície macia… dá-me uma quase dor que se entrenha nas células da minha carne e desidrata os caminhos onde se deslocam os eletrões que transportam o sinal da vida, a energia determinada que se irradia da pele sossegada da minha paixão, do amor completo, o amor que se propaga num espaço contiguo ao meu onde o pensamento alcança, mas onde os dedos só alcançam quando o espaço encolhe e  se engelha ao meu redor.

Sinto falta de mim aqui tão perto que estou, sinto falta dos meus amores aqui tão dentro do meu peito mas tão ausentes da minha mão… quero agarrar, quero apertar, quero amaciar…


Escritos, José Guilherme, 21Mar2017

quarta-feira, 6 de junho de 2007



O mar da Figueira e os seus calhaus que enchem a alma!!!.....
Passa a noite e passa o sono, anda por aqui ao lado mas não se deixa aproximar. Pelos olhos fechados deambulam imagens, pelos dedos passam cabelos compridos, um rosto tranquilo, uns lábios serenos. As mãos sentem a macieza e o volume, os lábios sugam botões entumecidos, a língua saboreia o odor, quente que se desprende da pele aquietada. E vai o sono adiado, persistem imaginações companheiras...

quinta-feira, 27 de novembro de 2003

Significado

Por onde tem andado o significado das coisas?
O significado é intrinseco às coisas, e como tal, e como elas, anda por aí? Ou, de outra forma, o significado e as coisas são distintos. As coisas são elas mesmas e o significado somos nós, ou o conceito que das coisas fazemos.
Porquê coisas, significados, ou nós; entidades fazedoras de conceitos, com os quais enchemos tudo o que tocamos? Para que serve tudo isso?
O sol comanda as disposições, as coisas sustentam o espaço, e os significados conquistam multidões. E onde está o ser, como unidade individual cheia de possibilidades, muitas das vezes deixadas esquecidas, exactamente porque as coisas, os significados, encharcam tudo, e tudo obscurecem.
Quero procurar, quero encontrar, quero empurrar do caminho as coisas muitas, os significados empastados, os conceitos assumidos.
Vamos criar, compor, inventar, ser unos e múltiplos. Vamos concentrar e unir a coisa no seu significado - construir uma coisa melhor.
Alguém me ouve neste canto ínfimo do mundo? Faz sentido ser ouvido? Porque quererá alguém ser ouvido?
Tudo se resume ao significado das coisas, e de novo estamos no inicio, como a pescadinha de rabo na boca.

segunda-feira, 10 de novembro de 2003

Pode alguém aprender a ser sensato, equilibrado, ponderado, sem ficar enrolado numa teia de ilusões, numa sequência não programada de episódios sequenciais, sem fim, nem vislumbre dum destino certo.
A vida pode ser pautada por uma constante reacção a eventos sucessivamente aleatórios, ou de outra forma, uma construção acumulada em direcção a um destino estrategicamente elaborado.
Ou nada disso, e tudo não passa de uma construção mental composta de palavras e de imagens disformes.
Sucedem-se momentos, episódios constantes e obsessivos. Sucede-se um cansaço, uma consciência crescente de algo que começa e não se perspectiva num final palpável...

Vou-me daqui, mas voltarei mais tarde. Fecho os olhos e mergulho no silêncio pausado onde deambulam os significados de mim...

terça-feira, 2 de setembro de 2003

Excertos dum eventual romance

V

Profundamente distanciado dos longínquos tormentos que o devastaram nas passadas horas, mergulhou sem intensão nas virgens folhas, lavrando sementeiras ricas de vida.
Muitas vezes confidenciava dessa forma as suas mais intimas inquietações, tornando imortal a forma documentada dum fluir agitado e quiçá, por outrem precipitado em acontecimentos parecíveis com um acaso muito menos que tal, antes meticulosamente engendrado com função mais acedível a quem quer que possua todas as faculdades, porque do acaso e do além só sem faculdades lá se chega!
Perdido em considerações mais dolorentas que inteligíveis dissecou em jeitos de cientista (porque à ciência não afligem os tormentos da imaginação, da angústia), o sentido duma vida e onde pode essa vida conduzir, bem entendido que só da sua vida se podia tratar, sim, porque lá existia outra, além da sua?!
A liberdade pode ser uma forma de atingir a essência do homem, ou antes um equívoco, uma intolerância, uma ilusão dimanada por correntes políticas, por lucubrações filosóficas, arbítrios com pretenções universalisantes.
Foi deslizando a caneta pelo papel e foram assim nascendo inesperadas habilidades.
"Um dia nasci, nu e feio, sem tendências e sem visão, do mundo nada mais me recebeu do que um apertão seguido duma ausência de limite envolvente, e duma palmada na parte de trás que me assustou, e me fez berrar argumentos que ninguém entendeu, achando que era sinal de prestabilidade e de boa criação. Enfim, eu que era pequenino e achava tudo uma enormidade, lá me fiquei que era preciso paciência e uma dose de tolerância para entender os inormissímos que se aproveitavam dos pequeníssimos para darem um ar da sua ciência, sim, porque mais que tudo, na sua inquestionável estupidez encontravam explicações para a sua especialíssima inteligência."
As palavras iam assim construindo parágrafos de que gostava, mas só até outros momentos, depois deixava de gostar, pareciam-lhe, acima de tudo, exercícios de mau gosto, sinais de pretenciosismo, mesmo até duma petulância excessiva. Não eram mais do que uma arrogância escravizante que submetia os imagináveis leitores ao doloroso exercício duma leitura do horrível!
Além disso, era uma comédia de verbos mal colocados, de palavras com letras trocadas, duma ausência embaraçante de sinais, duma hesitação de pontos e de virgulas, duma tímida vergonha de postos e virgulas e de dois pontos sempre no sítio menos necessário.

Pois, escrever era uma catarse nunca uma arte!

Depois, algum depois depois, voltava a gostar, mas só até não gostar outra vez. Achava que tinha alguma hipótese, alguma arte, alguma mestria ainda não revelada mas já percentida. Escrevia muitas vezes, mais do que aquelas em que rasgava em gritos de censura o que havia escrito num daqueles momentos, ou nos outros, fruto de alguma exaltação.
Sem aviso, uma melancolia alienante e viscosa apedrejou-o deixando-o sem presença, perdido num espaço em que o tempo não tinha acesso, um mergulho catatónico em águas sem história. O nevoeiro cerrado tardou em dissipar-se, escorrendo na sua face o enigma da vida - o sentido último do caos universal.
Uma dor imensa apartou-se do seu peito, os seus braços lamentaram a ausência esmagadora. Os fragmentos duma bomba deflagrada à sua frente ainda penetravam a carne, deixando chagas de onde escorriam em rios longas debandas de sangue esfumegante.
Recusava a vida entrando num convento tingido pelas cores da esperança, uma esperança pouco convicta.
Daí a algum tempo entraria no exercício do dever - dever voluntário - de proteger a nação contra os inimigos; mal ela sabia que de inimigos se bastava ela própria! De verde se cobriria e com ele enfrentaria a esperança de ressuscitar um dia mais disponível para enfrentar um destino por ele tecido - uma vez derrubados os Deuses irascíveis!

Deixando inerte o corpo por sobre a aconchegante colcha que cobria a cama companheira, foi cada vez mais lenta e desfocadamente deambulando por pensamentos cujo sentido se emaranhava e se perdia. As pálpebras fecharam-se, a luz esbateu-se, e foi assim acordando num longo e verde campo de batalha; extensos montes cobertos de verdura, semeados de árvores, escondendo soldaditos armados com razões em forma de espadas, fardados de vestes florescentes, comendo maçãs e contando histórias ilariantes.

Lá no longe, onde começava o mundo, vinha correndo, esbaforido, um cavaleiro, uma longa coberta, que, por sobre os seus fortes ombros colocada, deixava no ar um manto esvoaçante. Na mão erguia uma sôfrega pena e, com ela, cortava o ar abrindo caminho até ao destino, criado por um Deus que do outro lado do campo se dedicava atarefado a escrever as memórias duma eternidade.
Quando era chegado mais perto, o cavalo, que há longas horas desbravava desalmadamente terreno, deixou que um casco não se elevasse quanto bastasse, dando uma cambalhota pelo ar, mergulhando de seguida pelo chão a dentro; afogando-se pelas entranhas da terra, caindo de andar em andar até chegar a uma sólida parede, onde se estatelou. Recompondo-se atrapalhadamente, passando os olhos pela penumbra envolvente e embrulhando-se pelo manto, protegendo-se do intenso frio que enchia aquelas medonhas paragens. Não podia ser mais estranho o que sentia, como se o seu corpo fossem as suas vestes. Apalpando a parede onde batera, foi assim, cuidadosamente avançando, sempre ansiando pelo aparecimento de alguma imagem menos soturna, onde pudesse apalpar e ver o seu corpo, tão estranha era a forma como o sentia.
Repentinamente bateu num farto pilar. Contornando-o verificou que este ladeava uma descomunal porta, alta e larga, de aparência fortemente robusta, aqui e além aparelhada de peças de ferro maciço. Aos seus pés depositava-se um austero caminho, calcetado com grandes pedras, encaixadas aparentemente sem qualquer cuidado. Todo aquele cenário lhe causava grande apreensão, nada ali se mostrava agradável. Ficando de pé, pensativo, embrulhando-se intensamente na capa, pois a temperatura além de baixa deixava antever ainda mais frios ares. Um salto desastrado e uma falta de ar, causada pelo acelerante coração, deixaram-no no extremo do caminho por onde havia vindo. Um rouco e desarticulado som ocorria pelo lado oposto. Era o seu cansado cavalo. Ficou ainda mais apreensivo e soturno. O cavalo parecia estar a ficar invisível. Pelo seu corpo parecia adivinhar-se o que estava por detrás. Assustadamente retirou de si a capa e quase não se conteve, ficou como capaz de fugir de si mesmo. Através dele era igualmente possível observar as silhuetas daquele mundo. Não entendendo nada, agasalhou-se e passou em jeitos de cuidado a mão pelo cavalo. Olhou a porta, olhou o caminho. Qual a direcção a seguir? Montou o cavalo companheiro, e foi alguns metros pelo atalho, tentando descobrir onde poderia chega

quarta-feira, 27 de agosto de 2003

Já lá vão uns dias desde que li um artigo na Visão sobre os blogges. Passei pelo Abrupto, espreitei o blogger.com. Experimentei, fiz e desfiz, criei o Aquele Outro, saltou do papel para o écran - até agora textos antigos - a seguir já se verá.
Coloquei um contador, fiquei à espreita. Alguém tem vindo, alguns voltaram. Recebi um e outro email - saltou-me o peito, agitou-se-me a alma.
É tempo de avançar - vamos ver o que se vai suceder; o tempo que de momento é curto esticará - as palavras crescerão.

terça-feira, 19 de agosto de 2003

Aquele espírito

Hoje, estou com aquele espírito AK47; quando ocorre precinto uma regressão à minha infância, aos meus seis anos: vejo então, os gajos da frelimo a passearem as ditas Kalashnikov’s, a darem umas rajadas, umas gargalhadas.
Quando ocorre, o dito espírito, nada mais deve acontecer do que reservar-se o momento às suas razões, ausentar-se do mundo e ficar em silêncio, em busca do entendimento, desmembrando o todo nos seus pedaços constituintes em busca da compreensão.
O sabor a sangue pressente-se na ponta da língua, a memória acutila e faz suores na superfície da pele crispada. O som ressoa e faz tremer a consciência do momento. O medo do então é o medo do agora, os olhos saltitam nervosos no espaço, confunde-se aquele momento com o momento de agora. Faz força o sangue pelas veias, vai rápido levando a vida ao músculo. Fica o músculo pronto a explodir, a levar o corpo até longe onde o som rítmico e martelante não alcança. Ficar longe é bom porque os fragmentos não atingem, logo não furam, fica assim o sangue dentro do corpo, fica o espírito no corpo, fica a alma onde sempre deve estar.

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